Todos nós, superficial e erroneamente, ás vezes aprendemos que a história da sociedade brasileira tem seu início com a vinda dos portugueses no séculos XVI, representado pelo conquistador lusitano Pedro Álvares Cabral. A colonização da terra brasilis é um acontecimento, um fato importantíssimo para a construção de nossa sociedade com as culturas e costumes diferentes que formaram e formam o povo brasileiro. O problema é que durante muito tempo, com uma mentalidade eurocêntrica, sem maior interesse, o homem menospreza as sociedades que habitavam o território brasileiro a pelo menos 12.000 anos, com isso, não realizava pesquisas científicas sobre as sociedades aqui existentes antes da chegada dos portugueses. O resultado desse processo é refletido diretamente na escola, onde o nosso aluno não adquire informações, e conhecimento necessário sobre a nossa Pré-História.
Foi apenas no início do século XX, que as pesquisas sobre a nossa Pré-História começaram a crescer com um avanço significativo e hoje, a Arqueologia Brasileira estuda esses povos que durante muito tempo habitavam o vasto território brasileiro com seu modo de vida e cultura diferentes dos colonizadores europeus.
Entre as culturas Pré-Históricas estudadas estão os pescadores-coletores-caçadores (PCC), povos que ocupavam parte do litoral brasileiro por volta de 6.000 A.P., do Rio de Janeiro até Torres, no norte gaúcho. Esses povos são conhecidos como Sambaquianos, construtores dos grandes sambaquis. A palavra vem do Tupi, Tamba significa conchas e Ki amontoado. Sua principal característica é ser uma elevação geralmente arredondada, com múltiplas funcionalidades, dentre elas a possível residência e também o espaço em que sepultavam seus mortos. São formados por conchas de moluscos, esqueletos de crustáceos, ossos de peixe e mamíferos marinhos e terrestres, além de instrumentos de pedra lascada e polida.
Um dos maiores sambaquis que Laguna possuía, próximo à comunidade de Campos Verdes, década de 70, foi totalmente destruído.
Desde o século XIX, pesquisadores vêm trabalhando para decifrar a origem dos sambaquis. Duas correntes foram as primeiras a surgir: a naturalista e a artificialista. A primeira corrente, denominada de naturalista, defende que os sambaquis foram construídos pela ação dos movimentos de regressão e transgressão do mar e, junto com a ação dos ventos, foram formados. A teoria afirma ainda que os vestígios de sepultamento humano sejam resultados de naufrágios e que possivelmente, o sambaqui também é uma prova do dilúvio bíblico. Os pesquisadores artificialistas defendiam a tese de que os sambaquis eram apenas negligência dos índios em relação ao acúmulo de restos alimentares. Com o avanço das pesquisas, o resultado gerou uma comprovação de uma ocupação humana nesses locais.
Alguns sambaquis chegavam a 30 metros de altura e de acordo com estudos, há indícios de que quanto maior a altura, maior o poder na região; Possivelmente a altura do sambaqui-mor era motivo de orgulho para seus moradores e afirmava na paisagem natural o direito de posse territorial desde os tempos ancestrais (Prous, 2006).
O processo de colonização efetuado pelos sambaquianos ainda é um questionamento forte entre os pesquisadores, porém, várias hipóteses foram levantadas sobre a origem desse povo:
“...ou os mais antigos sítios conhecidos foram construídos por uma população que já tinha o hábito de explorar ambientes costeiros; ou essa população veio de um ambiente semelhante ao encontrado na costa do Brasil. Ou desenvolveu o seu modo de vida no litoral há muito tempo” ( Gaspar, 2000:32).
Em relação à estrutura social dos sambaquianos, supõe-se que ocorria a divisão de tarefas de acordo com o sexo, cujas funções eram diferenciadas. Existia também uma camada de figuras principais com grande prestígio para organizar as atividades coletivas, sobretudo se houvesse a necessidade de se construir ou ampliar um sambaqui. As atividades mais importantes estavam ligadas a coleta de moluscos e a pesca, que foi sua principal dieta alimentar. A habilidade dos sambaquieiros ficou registrada nos zoólitos, esculturas de pedra que representam mais de duas centenas de animais e de figuras geométricas. Em alguns casos, os artesãos caprichavam tanto nas imagens de peixes que é possível até reconhecer a espécie representada. Espinhos de peixe, esporões de raia, ossos de macaco e de porcos-do-mato eram afiados para virarem arpões e lanças de pesca. A presença de ossos de predadores ferozes, como tubarões, mostra que os sambaquieiros eram exímios e corajosos pescadores. (Gaspar, 2000:49).
“...os estudos mais recentes indicam que o peixe fornecia sua subsistência básica, em volume e qualidade. São peixes de todo o tipo, tamanho e periculosidade, pescados nos costões, no mar aberto e nas lagoas costeiras, com uso de canoas com as quais podiam alcançar ilhas distantes. Além de mamíferos como o lobo marinho e a baleia, aves marinhas, especialmente o pingüim, os crustáceos dos mangues podiam ser um complemento bem vindo” ( Schmitz, 2005:46)
A maior prova científica de que um sambaqui foi realmente uma estrutura social e não apenas um monte de conchas transformando-se em um depósito de lixo, está nos esqueletos humanos encontrados em sua formação. Dentro de um sambaqui, áreas especiais eram destinadas ao ritual funerário com cerimônias individuais ou em grupos. Após o enterro em pequenas covas, no qual os corpos eram colocados em posição fetal, ocorria um banquete. Tal afirmação é pelo fato de que próximo ao esqueleto, há muitos vestígios de comida. Alguns corpos eram cobertos por pedras e, devido aos inúmeros buracos de estacas, conclui-se que existiam madeiras para indicar o local do sepultamento que, às vezes era acompanhado de vários objetos pessoais de quem estava sendo enterrado. Em determinados sepultamentos, encontramos uma grande quantidade de esculturas de pedra ou de osso conhecidos como zoólitos, e em outros sepultamentos isso não ocorre. O que nos mostra uma desigualdade social ou um prestigio social muito elevado em comparação aos demais:
“Os sepultamentos, embora sigam um determinado padrão, não são idênticos nem mesmo em um único sitio. É difícil estabelecer se o programa mortuário sofreu mudanças através do tempo, mas é certo que houve tratamento especial para certos indivíduos e que estas especificidades não se restringiam às diferenças de idade e sexo. É possível considerar que o programa mortuário remete à organização social dos sambaquieiros se refere à existência de desigualdade social. ” ( Gaspar, 2000:70).
Outro aspecto importante nos sepultamentos, estaria ligado a posição dos corpos, haja vista que a posição fetal está tão perfeita em alguns casos. Para o arqueólogo Paulo De Blasis (2000), do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo, os corpos possivelmente eram descarnados, pois a posição do fêmur esta muito próxima do tórax.
Um dos esqueletos encontrados no Morro do Peralta.
Fonte: Grupep-Arqueologia – 2007.
As pesquisas de Arqueologia Moderna começaram da década de 50. Sobre os sambaquis da região de Laguna, entre inúmeros pesquisadores, dois nomes destacam-se na fase inicial dos estudos: João Alfredo Rohr nas décadas de 60 à 80 e Anamaria Beck a partir de 1971.
Rohr é considerado o divisor de águas na luta pela preservação dos sambaquis, denunciava ao IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), qualquer empresa ou pessoa que destruísse um Sitio Arqueológico. Mapeou e classificou inúmeros Sambaquis do Complexo Lagunar. Já Beck, encontrou em Laguna uma grande quantidade de sepultamentos, além “evidências culturais muito significativas: artefatos líticos – polidos, picoteados, lascados e com técnica mista... (FARIAS, 2000:49)”.
Hoje estão catalogados no IPHAN (www.iphan.com.br) 44 sítios arqueológicos em Laguna, destes, 43 são do tipo sambaqui. Porém, ao analisarmos melhor o banco de dados do IPHAN e comparando-os com as pesquisas realizadas recentemente na região, observamos a existência de apenas 23 sítios arqueológicos pré-históricos em Laguna. Algumas comunidades como Barreiros, Cabeçuda, Farol de Santa Marta, Campo de Fora, Caputera, Campos Verdes, Estreito, Galheta, Magalhães, Progresso, Passagem da Barra, Perrichil, Ribeirão Pequeno, possuem mais de um sambaqui.
Dentro das informações do IPHAN, podemos observar que alguns sambaquis possuem dois registros, mudando apenas o nome do pesquisador.
A partir do ano de 2000, as pesquisas dos sítios arqueológicos encontrados associados aos sambaquianos, ganhou um novo reforço. A afirmação é devido ao surgimento do GRUPEP-ARQUEOLOGIA (Grupo de Pesquisa em Educação Patrimonial e Arqueologia), uma iniciativa de professores e estudantes da UNISUL – Universidade do Sul de Santa Catarina - relacionados ao estudo do patrimônio arqueológico do sul de Santa Catarina. O grupo desenvolve trabalhos de identificação e salvamento arqueológico e paralelamente, procura sensibilizar as comunidades da região para a importância da preservação dos sítios arqueológicos.
As pesquisas arqueológicas em toda a região do complexo lagunar, evoluíram muito nos últimos anos, um exemplo disso foi a realização nos anos de 2003 e 2004, através de um grupo de pesquisadores articulados em torno do assim chamado Projeto Arqueológico do Camacho, estruturado em torno da lagoa do mesmo nome, no litoral sul de Santa Catarina, nos municípios de Jaguaruna, Tubarão e Laguna. Este projeto teve o envolvimento de vários pesquisadores do país, dentre os quais destacamos: Paulo De Blasis (Universidade de São Paulo – USP), Maria Dulce Gaspar (Museu Nacional/Universidade Federal do Rio de Janeiro), Deisi S. Farias (Universidae do Sul de santa Catarina – Unisul / GRUPEP-ARQUEOLOGIA), entre outros. O projeto realizou o estudo dos sambaquis daquela área, enfocando sobretudo, padrões demográficos e de organização social da sociedade sambaquieira, com uma ênfase especial nos processos formativos presentes na construção dos sambaquis, seu objetivo era:
[...] de um lado, uma abordagem sistêmica de um conjunto de sambaquis em seu contexto ambiental e paisagístico, seu território, perspectiva esta ainda ausente nos estudos com sítios litorâneos do Brasil. A principal hipótese do trabalho que fundamenta esta perspectiva e de que os sambaquis desta região, particularmente os maiores, representam um processo de sedentarização, adensamento demográfico e complexificação na organização social de uma população de pescadores-coletores-caçadores que parece tomar forma a partir de 3.000 anos atrás, aproximadamente. De um lado[...] explora o conceito de sambaqui como estrutura intencionalmente construída (DE BLASIS et al, apud FARIAS,2000:64)
Durante o projeto, foram cadastrados 52 sambaquis na área de pesquisa. O relatório final indicou que para os próximos anos, deve ocorrer um projeto temático de maior porte e abrangência, que se espera instalar nesta mesma área de pesquisa. Pretende congregar em campo todos os pesquisadores que dele deverão participar, de modo a construir um programa de pesquisas que tenha bastante consistência e coesão entre as disciplinas inter-relacionadas, numa abordagem verdadeiramente interdisciplinar. (Fonte: De Blasis,, 2004)
O MÚNICIPIO DE LAGUNA E OS SAMBAQUIS
Laguna na História
Em meados do século XVII, portugueses e espanhóis construíam seus limites nas terras conquistadas no então mundo novo, a América, através do Tratado de Tordesilhas. Nessa época, com interesses de se aproximar do extremo sul da América e defender suas terras contra invasões espanholas, a coroa portuguesa funda em 1676, a terceira vila mais antiga de Santa Catarina, Santo Antônio dos Anjos da Laguna. O território lagunense ocupava todo o sul do Estado e servia como ponto de apoio dos portugueses, sendo inclusive, a única vila a se desenvolver no Estado, a frente de São Francisco do Sul e Desterro (atual Florianópolis). Na época, Laguna foi definida como último porto meridional seguro, que apresentava garantia de abrigo à navegação costeira. Os lagunenses foram os desbravadores que se deslocaram para o sul do Brasil e deram início à formação do estado vizinho, Rio Grande do Sul. Dentre todos os povoamentos seiscentistas do litoral catarinense, o mais identificado com a animação expansionista rumo ao sul que o impulsionava, foi o de Laguna ( Taunay, 1961).
Com o passar do tempo, Laguna torna-se palco de importantes eventos da História do Brasil, como a Guerra dos Farrapos e a fundação da República Juliana. A cidade guarda em suas ruas estreitas e em seus casarios, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, as lembranças de um passado de lutas e coragem.
A terra onde Anita Garibaldi, a heroína dos dois mundos, que lutou em seu país e na Itália em busca da liberdade e melhores condições para todos, também possui um passado pré-histórico muito rico. A cidade tem registros arqueológicos de pescadores-coletores-caçadores (PCC ) que viviam na região aproximadamente por volta de 3.000 a 4.550 a.C. Tal sociedade possui a denominação de Sambaqui, como já abordei no capítulo anterior.
Os fatores econômicos, a velocidade do desenvolvimento em busca de um “bem estar coletivo”, acabou destruindo grande parte desse nosso patrimônio arqueológico, que possui fundamental importância para nosso desenvolvimento cultural.
O município de Laguna possui hoje 353 quilômetros quadrados e cerca de 50 mil habitantes, dentre os quais, grande parte não conhece ou se conhece, não possui um entendimento para uma construção cultural necessária a preservação dos sambaquis. É visível a falta de interpretação arqueológica dos moradores de Laguna, inclusive, a classe estudantil. Quando um aluno determina que um Sambaqui é apenas um amontoado de conchas, ele está imediatamente, sem intenção, destruindo todo um complexo cultural de uma sociedade.